Lagarto, profetas, cervejas

 Sábado pesadíssimo de calor e mormaço. Visito Douglas em sua cidade natal e fazemos o programa das últimas vezes: almoçar e sair pela cidade pra beber e ver as coisas. Ladeiras e ladeiras. Depois um vinho excelente, topamos com um bêbado na praça que curtia muito Chiclete com Banana e que chegou junto à nós já tomando o que restava do meu copo, o último gole do último copo. Deixei por menos, pegamos nas mãos, cantamos (Douglas mais que eu, por ser fã também da banda) e finalmente nos livramos, partindo para o próximo bar, o bar do Leite. O jogo entre Inglaterra x França pela Copa do Mundo, Brasil já eliminado, era o grande acontecimento da tarde. Mal começamos a beber e o personagem típico de domingos e bares aparece: o bêbado. O homem de porte forte, caboclo, típico sertanejo, em botas, casaco verde e calças, de bebida verde em punho e cervejas na mesa ao lado, com um amigo ao qual bajulava volta e meia, tinha os olhos baixos, sabe se lá se naturalmente ou por efeito da bebida, falava e falava enquanto assistiamos o jogo, num tom de palestra...

Disse que já fez muito treino físico no exército, pois ele precisavam de condicionamento físico, igual aos jogadores que passavam na tv; o quanto é necessário ter cabeça fria no jogo de futebol e que havia conhecido Pelé pessoalmente nos anos 70, em pleno aeroporto de Salvador; pitacou que Bolsonaro era democrata e Lula socialista (enquanto falava sobre seu trabalho como vigia de uma fazenda ali pelas redondezas e a pistola que tinha na bolsa, que não o permitia hesitar numa situação de perigo e nem que eu e Douglas discordássemos) portando um chapéu terroso de vaqueiro com o brasão nacional cravado ao meio; disse que a política era suja como sempre; sobre os olhos serem a janela da alma - eu gosto de ver é pela janela da alma, que revela tudo -; que conhecia muitos juízes em Salvador e que o trabalho deles era honesto, tendo rejeitado a chance de trabalhar com eles e ganhar algo na faixa de 5 salários, mas como amava muito Sergipe, preferia ficar por ali mesmo; sobre seu curso de teologia em Salvador, citando Tomás de Aquino e algo sobre os graus da verdade e da gratidão; sobre quando voltássemos em outra vida, o karma e como deveríamos ser e por fim sobre as glândulas pineais, anunciando que eu tinha uma que queimava a todo momento e que não me permitia ficar quieto a nenhum instante.

- Você é de novembro...

Acertou o mês do meu aniversário, do nada! Eu e Douglas nos olhamos...completou ainda:

- Você é do primeiro decanato. Está destinado a coisas grandes, a realizar coisas grandes. Você é esperto, observador, eu vi logo no seu jeito...só não pode perder a fé pois o sol ilumina sua cabeça, seu decanato...agora é só ter fé e realizar pois você tem coisas grandes a fazer, o sol ilumina a todo momento, sua cabeça não pára...você tem pensamentos brilhantes a todo momento, quem tá falando é profeta Santana, pode perguntar aqui que todo mundo conhece, eu moro numa fazenda aqui perto, porque eu trabalho lá e eu quando vejo um rosto uma vez nunca mais esqueço, bem assim vai ser com vocês...

Despediu-se repetindo algumas coisas, agradecemos num aperto de mão afogueado e bêbado e ele partiu.

O espanto permaneceu até então.

O espanto permanecw

O espanto permaneceu diante daquilo. Ele se despediu 

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