Dw Forasteiro e as pílulas vermelhas e azuis: breve faixa a faixa sobre o EP “Soul Past”


 

Em beats autorais do próprio Dw Forasteiro e dos beatmakers Wolf, AHN e Chuki beats, Soul Past é um EP de onze faixas, lançado por DW no final de 2019 pela gravadora Dofrei Records.

Com beat de Wolf em “Atenção”, esse, um boombap nervoso ao melhor estilo anos 90, Dw manda um, das dezenas de versos que resumem essa ansiedade ao decorrer do EP: “esse rap é futurista e ao mesmo tempo atrasado/ tipo Black Mirror com o diretor chapado” colocando em xeque o seu próprio trabalho, equilibrando seus lados negativo e positivo; já menos filosófico, em “Enxofre”, um trap bate-cabeça fudidamente pretensioso e descontraído onde o beat toma conta da letra, recheada de multisilábicas, versos soltos e ácidos, referências a Baco e Diomedes no refrão onde, ao final da track, Dw deixa escapar um desabafo exalando o enxofre da crítica e da ironia a qual espalha durante o EP todo.

Num lo-fi de Ahn, “Teoria de Darwin” é a faixa mais melancólica e devaneante, com seus timbres distantes e suaves como forma de amenizar o clima tenso do EP, sendo umas das mais introspectivas, própria pra ouvir em dias de chuva.

Todas com produção do próprio Dw, “Rima sem moderação”, música que abre o EP de forma sólida, “Bug no FL” e “Vigários” (participação de Jota Jota (atualmente ALLGU$T) e Chosen, Mcs da cena local), são traps que versam principalmente sobre a cena e sua falta de incentivo que dificulta ainda mais o corre independente, principalmente das regiões longe da capital, porém ao mesmo tempo convidam geral pra bater cabeça, com destaque para Vigários cadenciada por Jota Jota num refrão simples e Chosen em rimas ótimas, finalizando a track que termina com um dos raros momentos de descontinuidade e imprevisibilidade do beat.

 Em  “Anomia” ( Segundo o Dicio: Que não possui norma; desprovido de lei(s); sem regra(s); anarquia ou desorganização.) prevalece a reflexão sobre a descrença do cidadão em si mesmo entrecortada de storytellers (narração de histórias) quase que jornalísticas e com destaque para os ótimos versos: “ bang, bang/ sangue jorra até dar medo, quase sempre gay, mulher pobre e negro” e “o feminicídio é moeda antiga/ mas não é relíquia pro Brasil tá colecionando” um boombap de aspecto sombrio, como o tema pede.

Já em “Beiço de jegue não é arroz doce”, Dw propõe um relato áspero sobre como nasce o banditismo e onde levam os seus destinos.

Mais a frente, “Penumbra” (com participação de Mago NineSenses), “Matrix” (com clipe que você pode conferir aqui) e “Aos 45 do segundo tempo”, (essa, a última faixa) podem ser vistas/ouvidas como partes de uma trilogia que tenta explicar essa agonia ou ansiedade diante da Matrix (referência ao filme) que percorre toda a obra; a introspectiva “Penumbra” mergulha nas perguntas e situações que atravessam o cidadão no cotidiano; enquanto “Matrix”, com trap afiadíssimo de Chuki Beats e outra participação de Chosen, define o sentimento de tal cidadão, pessoa vivente no meio dela e seu dilema “realidade x sonho”, sendo essa uma das melhores e mais expressivas tracks do EP; já “Aos 45 do segundo tempo”, tece em rimas e versos calmos o sentimento de esperança e paz interior que é preciso para seguir na busca da própria identidade, caminho ou sol, em meio a tanta escuridão, finalizada com uma colagem de “Thats My Way”, de Edi Rock e Seu Jorge.

“Soul Past”, que traduzido do inglês significa “alma passada” e que sonoramente remete a “so (em lugar de seu) peste” uma forma de tratamento própria do nordeste e mais exatamente de Sergipe, é um EP que retrata tal qual um diário, a agonia e esperança por meio das storytellers (narração de histórias) do eu enquanto coletivo e vice-versa, dialogando direta e indiretamente com a referência do filme Matrix, o que ajuda muito a entender o teor do EP e a situação de um Neo frente a Morfeu imaginário, real ou figurado (recomendo o filme).

Assim, apesar de ser o seu primeiro trabalho solo e trazer todas as marcas de um trabalho de estreia, “Soul Past” é um até que consistente, tanto musical quanto liricamente, EP solo de estreia do rapper sergipano Dw e um chamado à sanidade e sentimento em tempos de dúvidas e incertezas. Com certeza, uma boa pedida para os amantes do rap de mensagem, então ouçam e aproveitem! 

 

Referências:

https://www.dicio.com.br/anomia/

https://baurutv.com/2016/12/19/matrix-1999-eua-dublado/

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